O Maestro (ou "o Vati" da Alma Welt)-desenho de Guilherme de Faria
SONETOS DO VATI (Papai), de Alma Welt (Compilação pelo Dia dos Pais)
A Herança (de Alma Welt)
Sem peso, nem culpada me sentir
Foi tarefa nada fácil para mim
Com minha mãe açoriana a perseguir
As alegrias desta vida com que vim,
Pois tive de meu Vati todo apoio,
Pensador erudito e pianista,
Que do colo materno num comboio
Tirou-me declarando: “Não insista!”
“Esta é minha, já sabes, não te metas
Farei dela minha Arte e Aventura
E livre a criarei em meio às letras.”
“Ao carregar família e este vinhedo,
Aquilo que não tive, por ventura
Será a sua herança e não seu medo...”
(sem data)
A carruagem (de Alma Welt) *
1001
Um piano toca no salão!
Ah! e não fui eu que coloquei
Um CD ou um velho long play,
Talvez seja o Vati, e então...
Ele voltou! Sim, ele me quer!
Vou ao seu encontro e sou mulher!
Sim, ele vai ver agora sou
Pelo menos a guria que sonhou.
Olha, Vati, há muito não me vias,
Mas de verso em verso muito errei
Pelo mundo, a viajante que querias...
E agora, com toda esta bagagem,
Leva-me contigo que eu irei
Quietinha, assim, na carruagem!
19/01/2007
Nota
*Este foi o último soneto da Alma, escrito na véspera de sua morte.
Agradecida (de Alma Welt)
263
Pelos amores que quis ou que vivi
Nos dias e nas noites estreladas,
Em apelos à lua e às amadas
Estrelas cujas luzes recebi;
Pelo dom que assim me fora dado
Quando erguida nos braços de meu Vati*
Fui consagrada como ser predestinado
A ser um ser de luzes, mesmo um Vate;
Pelas doces coisas que me deram
Aqueles que tão logo rodearam
A guria que em contentar se esmeram,
Mimada, servida, tão louvada...
E a alguns que até me bajularam
Como se princesa fora... OBRIGADA!
16/01/2007
O sangue da terra (de Alma Welt)
231
Vati, ó Vati, leva a tua filha
Contigo em tua sela às pradarias.
Se vais levar sozinho uma novilha
Por quê razão a mim não levarias?
Queres que eu seja o fino espelho
De tua alma cantora e pianista,
Mas também carregas esse relho
Herdado do avô boche, o "arrivista"
Que na verdade, bom agricultor
Já lá nas suas terras dos Sudetos
Não merecia tal suspeita e rancor
Pelas uvas que plantamos desde então,
Pois que agora nos vêem, filhos e netos,
Pisando o novo sangue deste chão.
03/04/1999
Meu Mundo (de Alma Welt)
(226)
Quando quero viajar o mundo inteiro
Me dirijo ao escritório do meu Vati
Com seus três mil livros e o tinteiro
Com sua pluma de ema de cor mate.
Ah! A bomba e a cuia ali estão
Sobre a mesa como signos do pampa
De onde partirei para o Japão
Inspirada por aquela bela estampa
Da famosa onda do Hokusai
Com o monte Fuji bem no fundo
Incluída em testamento por meu pai
E doada só a mim, com intenção
(que nem mesmo precisava tal menção)
Pois co'a pena e os livros... é meu mundo.
(sem data)
Estrelas que mais brilham (de Alma Welt)
224
Me lembro do meu Vati me contar
Que as estrelas viviam e morriam
Depois de envelhecer e definhar
Mas que no final, pasme! explodiam!
Para de novo tudo tudo começar
Mas em "super-nova", em brilho incrível.
E eu então comecei a matutar
Se não ocorre o mesmo em nosso nível
Pois como estrelas que um dia pereceram
E já não estarão na Branca Via
No exato lugar onde nasceram
Tenho certeza que eu por certo voltaria
Mesmo que outro fosse o meu pomar,
Querendo (que vergonha!) mais brilhar...
20/12/2006
Elêusis (de Alma Welt)
(220)
Estrelas do meu Pampa, peregrinas
Que eu via do jardim anoitecido
Onde colhera as flores pequeninas
Por entre as quais singrara meu vestido
De guria de olhar indefinível
E branca como um vaso de alabastro
Que meu pai votara ao grande astro
No teatro de uma ópera invisível
Encenada naquele nosso Elêusis
Que fizéramos desta bela estância
Onde o Vati me consagrou aos deuses...
Estrelas, sou poeta mesmo agora
Fiel ao meu sonho da infância
Pois que sua magia ainda vigora!
10/12/2007
Ajustes, ou Antes do casório (de Alma Welt)
(214)
O peão chegou diante do Vati*
E depôs o punhal na sua mesa:
"Patrão, guarde isso antes que mate
Um desafeto, me faz a gentileza."
"Para medir a cova do gaudério*
Que faltou com o respeito à minha prenda,
Já estive até no cemitério
Mas resolvi suspender a encomenda"
"Pois vou me casar e a eleita
Tem o senhor como padrinho,
Não posso "le" fazer essa desfeita."
"Não abrir mão de uma vingança
Na vida, creio que é mesquinho
Quando se vai ser pai de uma criança."
22/11/2006
nota da editora:
*Vati- pronuncia-se Fáti, "papai" em alemão.
*gaudério- indivíduo sem eira nem beira, fanfarrão. Não confundir com o Galdério (com l), nome próprio do nosso fiel charreteiro, seleiro, e factotum aqui da estância, irmão da Matilde, nossa querida cosinheira e
antiga babá. (Lúcia Welt)
A Herança (de Alma Welt)
(206)
"Minha Alma, tu és a minha herdeira,
Aquela a quem doei minha cultura
Angariada nos livros, e és a futura
Poetisa-musa estancieira"
"A quem caberá ser e irradiar
O saber herdado e a justiça
Que é a conseqüência do pensar
Correto, claro e sem cobiça."
Assim falou meu pai, que eu chamo Vati,
Werner Welt, o grande pianista
Que herdara o que já fora do mate
E então como vinhedo produtivo
Lhe permitira com zelo tal cultivo
Da Alma e sua vinha ilusionista...
12/01/2007
A escolta (de Alma Welt)
(205)
Meu pai era um homem de cultura
Em meio a peões um tanto rudes
Mas isso não causava ruptura
Mas apenas diferença de atitudes
Pois a verdade é que o viam como rei
Para além do patrão estancieiro
E era tão belo e alvissareiro
Percebê-lo, que uma vez até chorei.
Foi quando chegou de uma viagem
E Galdério foi buscá-lo na estação
Com a charrete e uma escolta de peão,
E ele entrou na alameda a cavalo,
Galdério na charrete com a bagagem,
Um a pé e outros dois a ladeá-lo.
04/12/2006
Nobrezas (de Alma Welt)
(203)
Vinha um cavaleiro pela estrada
Que meu pai acompanhava desde longe,
Mas não foi buscar a espingarda
Nem ficou imóvel como um monge.
Agitou-se e me disse emocionado:
"Alma, é o Rogério, meu amigo,
Reconheço-o pelo seu jeito montado,
Como se fora cavaleiro antigo."
"Ninguém monta mais como o Rogério,
Que denotava a sua nobreza
Tanto sobre a sela quanto à mesa."
"Alma, peça pra Matilde e pro Galdério
Prepararem estrebaria e almoço
Que precisamos ser dignos do moço."
08/11/2006
Palavras ao padre (de Alma Welt)
(202)
Entre, padre, e queira desculpar-me
Mas não perca tempo em doutrinar-me.
Sou pagã praticante e amo os numes,
Os deuses que ouvem meus queixumes.
Meu pai criou-me em pleno Olimpo
E com muitas visitas ao Walhalla.
Por isso, padre, jôgo limpo:
A vida só me fez por mais amá-la.
Se me vens falar do Senhor Cristo,
Garanto que ele tem o meu respeito
E creio que ele saberia disto:
Sou inocente como uma criança
Já que sou poeta e tenho feito
Da minha vida um canto de esperança.
16/01/2007
A selva (de Alma Welt)
(190)
Entrando no vetusto casarão
Procuro logo aquele sacro espaço
Da biblioteca, um bom salão
Com seus dez mil livros como um laço
Que me envolvia toda na infância
E não podia mais sair, mas sem revolta
Lendo e mais lendo com ganância,
Sentindo o mundo todo à minha volta.
E foi ali, numa mesinha para mim,
Que meu pai instalou especialmente,
Que a Poesia brotou em minha mente,
E assim como um piá ou curumim
Do silêncio daquela selva emerso
Veio à luz o meu primeiro verso.
08/01/2007
Memórias (de Alma Welt)
185
Ontem, eu corria, livre em mim
Em torno à minha casa avarandada
Soprando as sementes do capim,
Mais que observando: integrada
Às lindas coisas da relvas e do ar,
Pequenas flores, insetos a voar,
Aves, nuvens, o vento nas coxilhas
Nesse desfilar de maravilhas.
Então ouvindo o piano, o som do rei,
Eu corria para vê-lo no escritório
(já que era ali seu território)
E de bruços me punha estendida
Num tapetinho debaixo do Steinway,
Que era a prova do quanto era querida...
O Vento e o Maestro (de Alma Welt)
(170)
Ontem soprou forte o minuano
E bateu todas as portas e janelas
E ainda passou por baixo delas
Para fazer vibrar nosso piano
Que pôs-se a tocar feito um espectro
De música, se é que isso houvesse,
Como uma paródia do Maestro
Que legara seu silêncio como prece
Pois pra que este emoldurasse
Sua música e em nós reverberasse
Nosso pai o tocava de outro plano
Então pedi perdão e o dedilhei
Pr'afugentar rei Mino, o tal tirano
Que invadira as cordas do Steinway...
22/06/2006
Nota
Fiquei pasma com a síntese poética com que Alma contou neste soneto esse episódio de que fui testemunha. O minuano invadira a casa e julgamos ouvir as cordas do piano na biblioteca vibrando como um órgão, instrumento de cujo som Alma não gostava e do qual tinha medo. Então pela primeira vez desde a morte do Vati sentou-se ao piano e tocou-o, numa espécie de concerto em meio à orquestra lúgubre da ventania. Ela parecia um pouco delirante e fiquei muito assustada, embora ela estivesse tocando magnificamente como se tomada pelo "maestro", como nosso pai era às vezes chamado. Ela só parou quando o vento passou. Eu e ela estávamos lívidas, mais brancas do que já éramos, segundo a Matilde que ouvindo o piano do patrão, veio da cozinha, assustada, para ver o que se passava. (Lucia Welt)
Palavras à Matilde (de Alma Welt)
(156)
Matilde, me prepara aquele mate
Que hoje não levanto do meu leito!
Acordei com aquela dor no peito
Causada pela falta do meu Vati.
Não quero escrever e nem pintar,
E muito menos, como dizes, trabalhar,
Já que não dás valor à minha arte
E vives a dizer que vivo à parte
Longe das coisas deste mundo
Que pra ti é somente o dia-a-dia,
Os trabalhos e os deveres, sem poesia...
Mas então, Matilde, tu não vês
Que o soneto é meu labor profundo
A espelhar o mundo que Deus fez?
28/11/2006
De reinos e condados (de Alma Welt)
(137)
O meu bosque é um mundo insuspeitado
Que tenho ao meu dispor desde guria,
Com as lições matinais da cotovia,
Embora ela não seja do condado.
O rouxinol, também, anoitecendo
Eu ouço na memória ancestral,
Tão européia, eu sei, e espectral,
Esta mente com que tanto condescendo.
Pois meu Vati sustentava as minhas horas
No bosque buscando o cogumelo,
Para voltar somente com as amoras...
E eu sabia que ele garantia
A minha alma ansiosa pelo belo
Que os tempos e os reinos confundia.
12/01/2007
Nota
Alma foi criada no meio dos livros, praticamente dentro da biblioteca clássica de nosso pai, o Vati. A cultura européia povoava o seu mundo interior que no entanto tinha raízes no pampa que a circundava. Neste soneto ela faz alusão à cotovia e a ao rouxinol, aves européias inexistentes no nosso Pampa (e no Brasil em geral) provavelmente por causa da famosa cena do Romeu e Julieta de Shakespeare. Também os cogumelos e as amoras representam essa polarização Europa-Brasil, que ela conciliava como cenários: imaginário e real, dentro de si. (Lucia Welt)
Quando as violetas floresceram (de Alma Welt)
(124)
Quando as violetas floresceram
Eu trancei com elas a guirlanda
Com que ornei o piano que esqueceram,
Já que ali a mão dele não mais anda.
O Steinway agora é o seu túmulo
Negro como laje de granito,
E o coração ao vê-lo dá um pulo
Se olhado de repente, como um mito.
A alma ao recordá-lo mais se cala,
Que tudo nesta sala é encantado
E um espinheiro não tarda a cercá-la
Pois sentimos avançar a sonolência
Que, lenta, vai tomando a sua essência,
E um sono de cem anos é chegado...
16/01/2007
Nota da editora:
O piano de cauda Steinway, de nosso pai, grande pianista, após sua morte permaneceu intocado na sua biblioteca, que por alguma razão parece mesmo
adormecida, e não ousávamos falar ali, Alma, Rôdo e eu comunicando-nos por gestos, quando íamos procurar algum livro ou documento.
O abraço do vento (de Alma Welt)
(104)
Matilde, não adianta me olhares
Com olhar de censura, volta e meia.
Não tem jeito, embora eu tenha ares
De princesa que às vezes titubeia.
Me queres no papel que era da Mutti,
Mestra da ordem, do mate e do tomate,
Ou mais ainda: do meu amado Vati
Que era Deus, isso nem mais se discute.
Sei que viste-me sair mais uma vez
Nua ao vento em plena pradaria,
E julgas que tua Alma desvairia.
Mas juro-te, Matilde, se assim faço
É pra sentir de novo aquele abraço
Do meu pai, guria em minha nudez...
10/01/2007
A grande casa muda (de Alma Welt)
(94)
Grandes tomos, encadernações de pano
Nas prateleiras à volta do piano;
A mesa com o globo e o diapasão,
A cuia e a bomba... o chimarrão.
O Steinway mudo e quedo continua,
Mas negro e luzidio como era
Somente um acorde reverbera,
Aquele mesmo da despedida crua.
Velei o "maestro" entre tocheiros,
Ou tentei em vão por uns instantes:
Tiveram que arrastar-me... os ordeiros!
E agora eu procuro nas estantes,
Nos quartos, no salão, até na cave,
Uma carta, uma frase... uma chave.
05/01/2007
Estórias de chimarrão (de Alma Welt)
(90)
Eu vi o cavaleiro em sua chegada
E admirei o nome e a saudação;
Estava ao lado de meu pai e fascinada
Vi o velho passar-lhe o chimarrão.
Então começou aquela charla
De velhos companheiros de noitada,
Até que ouvi um nome: Carla,
Sussurrado de maneira disfarçada.
E eu, guria de imaginação voraz
Logo pus-me a imaginá-los enredados
Numa trama de ação meio patética
Entre dois amigos: Welt e Vaz,
Que ficaram muito tempo separados
Somente pela mesma escolha estética.
05/01/2007
Quando avisto ao longe... (de Alma Welt)
(65)
Quando avisto ao longe o casarão
Da minha infância e agora da poeta
Que o canta e molda em emoção
Como reminiscência predileta,
Eu vejo que eterno ficará
Em sua saga própria, suas lendas,
Conquanto a decadência chegará
(as paredes já ostentam suas fendas)
Pois tudo permanece na memória
Que co'a mente do leitor forma um todo,
Como as ruínas das Missões e sua glória...
Aqui a Alma amou e foi amada,
Aqui foi feliz c'o Vati e o Rôdo
E com a prole inocente e encantada!
30/12/2006
Alma insegura (de Alma Welt)
56)
Sinto falta do "velho" em minha vida:
Minha mãe morreu em meio à lida
E meu pai não era velho, era lúdico,
Assim, como uma espécie de deus músico.
E agora olho em volta: tão sozinhas,
Quando é a mim que cabe ser esteio,
As crianças cresceram de permeio
Entre mim e sua mãe, as pobrezinhas.
Bem sei que não devo me queixar,
Não sou fraca, assim, de jogar fora,
Embora só pareça poetar...
Mas é que aos poetas, disse Keats*,
Falta aquele caráter, muito embora
Pareçam estar com a vida sempre quites.
24/12/2006
A "pontinha" da Alma (de Alma Welt)
(45)
Quando o sol se põe na minha varanda
Eu fico muito tempo a contemplar
Pra ver o universo como anda
Com minha estrela ainda a faltar.
Sim, porque meu pai me garantia
Que cada estrela é uma alma que cumpriu
O seu papel e agora brilha noite e dia,
Só visível quando o astro-rei saiu.
Mas eu sonho ainda ter algum destaque
Nessa imensa peça cosmogônica
E pra isso me comporto meio mal:
Uma estrelinha deslumbrada e basbaque
Fazendo uma pontinha meio cômica
Para um dia ter um brilho triunfal...
20/12/2006
Prelúdio à tarde de uma ninfa (de Alma Welt)
(44)
Muito me estendi na pedra chata,
Nua como Zeus me concebeu
Na borda do meu poço da cascata
A sonhar com algum herói aqueu
Que me possuiria sem coroa
Me doando como um fauno a sua linfa
Por me ver ali largada como ninfa,
Sem véu e sem grinalda, assim à toa.
Nada de castelos, carruagens
De abóbora, sapatinhos de cristal,
Nada dessas pueris bobagens!
Eu me via num bosque ideal
De um remoto tempo arcadiano,
Com Debussy, o Vati... e seu piano.
20/12/2006
No dia em que a Mutti nos flagrou (de Alma Welt)
(42)
No dia em que a Mutti nos flagrou
A mim e ao irmão em brincadeiras,
Pelos nossos cabelos arrastou
Entre peões e risadas zombeteiras.
Com a mãozinha, obrigada, eu cobria
As “vergonhas” ( o que não me ocorreria)
E fez-nos entrar no casarão
Para mais furibundo e atroz sermão.
Mas eis que o Vati, carinhoso
Disse: —Pára, mulher, assim não vai...
Criança é bichinho só curioso...
-Não a toques, vê, está pelada!
Gritava minha mãe ainda irada...
E ele: “Vem, minha princesa, com teu pai!"
20/12/2006
Missões... a minha poesia (de Alma Welt)
(36)
Meu pai, um dia, didático, me quis
Levar ao território das Missões
E mostrou-me o poder das Reduções
A força, a arte e fé dos Guaranis.
Eu, guria, na presença de tais muros
De dura pedra assentados pelo amor,
Jurei, por minha vez, com versos puros
Ergueria os meus, com a mesma dor,
Mas que a minha catedral não cairia,
Não tombaria como sombra de si mesma,
Não se arruínam os muros da Poesia:
As paredes erguidas verso a verso
E guardadas por mim qual abantesma,
Tijolinhos como estrelas no Universo.
18/12/2006
Abro a janela... (de Alma Welt)
(30)
Abro a janela que dá para o jardim
E vejo meus irmãos ali brincando.
Ah! já começaram! E sem mim!
Voltei à infância, já me atrasando...
Esperem-me, Solange, Rôdo, Lúcia!
E vindos da futura geração
O pequeno Hans e seu irmão
Que parecem dois ursinhos de pelúcia.
Estamos todos juntos... como pode?
Ah! Somos crianças novamente!
Pedrinho pede a Pati que o rode
Ao compasso do *scherzo de Beethoven
Que o *Vati punha alto para a gente,
E que os meus ouvidos ainda ouvem...
16/12/2006
Soneto de Nostalgia (de Alma Welt)
(17)
Quanto fui amada em minha infância!...
Como viver então sem mais viver
O reino de encanto que era a estância,
E alegria e beleza ainda manter
Se a alma deste pampa era o meu Vati*
E seu piano mágico, polido,
Agora amargo como o coração do mate
E surdo como o verso com que lido?
Perdida do pomar do paraíso
Não só a inocência mas juízo,
Desço o rio de amor da minha mente
Que me mantém acesa e ainda viva
Nesta mansão que afunda lentamente
Como um *barco bêbado à deriva...
19/11/2006
Notas da editora:
* Vati- do alemão, papai. Pronuncia-se Fáti (diminutivo de Vater
( pr. Fáter (pai)
* barco bêbado- alusão ao célebre poema de Rimbaud,
Le Bateau Ivre(O Barco Embriagado).
Eu vinha pela senda... (de Alma Welt)
14
Eu vinha pela senda rumo ao lar
E gritei, o coração saltando, ai!
Reconheci, eu juro, o dedilhar,
Eu ouvi o piano de meu pai.
Atravessei a grande porta sem aldrava
E penetrei no santuário de seus livros.
Ali, o Steinway mudo ressoava
E vi meu pai, como antes, entre os vivos.
Ali estavam minha Mutti e a avó Frida,
O pobre Alberto, bêbado e bondoso,
E Solange que com ele ainda discute.
E entre eles, alto e majestoso,
O avô Joachin, que não quis ouvir em vida
Este piano que na morte repercute...
06/12/2006
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