terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Crônicas da desilusão (de Alma Welt)

Quando guria, um velho padre santo
Visitava minha mãe sempre doente
E ao sair me chamava para um canto
E me dava sua benção sorridente.

Eu achava natural, ele era padre
Até que um dia, meu pai, que fora ateu,
Em conversa com amigo, seu compadre,
Comentou como o velhinho o converteu.

"Quando jovem"- disse- "eu tinha em vista
Nas santas tripas do último padreco
Enforcar o derradeiro comunista."

Eu fiquei tão chocada ouvindo aquilo
Que nesse dia quase tive um treco,
Pois conhecera um pai sempre tranquilo...

.
13/02/2018

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Conselhos de meu pai (de Alma Welt)

Meu pai já me alertava, na verdade,
Contra as almas canhotas traiçoeiras
Que conspiram no campo e na cidade
Comendo a nossa liberdade pelas beiras.

As almas torpes, afeitas à mentira,
Que torcem os fatos por pura negação,
Que fedorentos pneus são sua pira
De ódio e inveja do rico e do patrão.

Que amam a escravidão e a pobreza
Mas dos outros, que não a deles mesmo,
Esquerdopatas de caviar na mesa...

E dizia meu pai: "Sempre os combata
Enquanto estão aí somente a esmo,
Por que depois estarás sob a chibata..."

.
29/08/2017

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Adeus às ilusões (de Alma Welt)

De guria, meu pai já me alertava:
"Por mais que sejas dócil, Alma, e boa,
Inimigos ganharás, e não à toa,
Pois o Bem, dos maldosos solta a trava."


"Vão te caluniar, torcendo os fatos
E as tuas palavras, com malícia,
Querendo devorar-te, como ratos
Com olhinhos vermelhos de cobiça."

E eu, chocada, recusei-me a acreditar
Supondo o meu pai velho e ranzinza,
Já que o mundo parecia me abraçar.

Precisei sair pro mundo ainda inocente,
E ver minhas ilusões virando cinza,
Pra deixar de ser ceguinha, finalmente...

.
25/08/2017

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

A rainha do meu quintal (de Alma Welt)

Perguntei ao meu pai, e era guria:
Por que existe o Mal no mundo e aqui não?
Pode um dia ele chegar pelo portão
E não me deixar mais fazer poesia?

Meu pai sorriu mas ficou sério de repente,
Coçou a barba e deu um suspiro fundo
E disse: Alma, o Bem é uma semente
Que também germina e cresce neste mundo.

Não se preocupe tanto agora com o Mal,
Tua pureza te defenderá de tudo
Se a mantiveres sempre em ideal...

Os espinhos são os guardiões da rosa,
Então vai brincar depois do estudo
Em teu quintal onde és rainha poderosa...

.
24/08/2017

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Quando fui ao mundo (de Alma Welt)

Vivia o Mundo o seu tempo de Caos,
Que se arrasta já há muito tempo;
Triunfos sórdidos dos podres e dos maus,
Confusão, matança e contratempo...

Saí de casa e vi as torres desabando
O povo estava em pânico mortal
E então estaquei, me vi voltando
Encolhida, pro jardim e meu quintal...

Então meu pai me olhando ternamente
Disse: "Alma permaneça no teu reino,
A beleza deste pampa é permanente."

" Mas se fores ao mundo, não amarela!
Tens porte de modelo, faça um treino,
Põe teus livros na cabeça... e passarela!"



.
11/08/2016

sábado, 23 de março de 2013

               O Naufrágio da Esperança (Die verunglückte Hoffnung) - Caspar David Friedrich 1774 -1840

O Naufrágio da Esperança (de Alma Welt)


Agora que o mundo já acabou
E nosso belo casarão também ruiu;
Que a Esperança foi ao mar e naufragou,
E a vela que sobrou não tem pavio...

Agora que o jardim está em trevas
E não se sente mais o cheiro de jasmim;
As memórias que ficaram são primevas
E não falam desta estância, nem de mim;

Se inerte e assombroso estás no chão,
Como irei te reencontrar, ó pai da Alma
Em teu reino reduzido a um caixão?

Cessou tudo, até o som do teu piano,
E terei que apreender tua nova calma
No teu mundo de silêncio desumano...

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Il Maestro- desenho de Guilherme de Faria, 1965, (nanquim a pincel sobre papel Ingres) coleção do artista
Eu, o Maestro e a Poesia (de Alma Welt)


Meu pai, Vati, que chamávamos Maestro
Era um bom exemplo de virtude.
Viril, forte, ponderado, muito destro,
Amoroso, esquecê-lo nunca pude.

Assim, sempre por perto, deu medida
E parâmetro da espécie masculina
À Alma entre a macheza empedernida,
As prendas-objeto e a pobre china.


E decidi-me então a solteirice
Que a mim me pareceu o mais honroso
No reino em que reinava a tacanhice.

E assim, casei-me com a Poesia
Num casamento gay escandaloso,
Algo entre rouxinol e cotovia...